terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

CONVIDEI PARA JANTAR

OS MEUS PRIMEIROS AILAVIUS...

Entraram na minha vida tinha eu onze anos e até aos doze deixaram-me a cabeça a andar à roda.

O que mais me seduziu neles foram os seus caracteres intrépidos, a defesa intransigente das causas e valores em que acreditavam, os riscos permanentes que corriam para colocaram a salvo “as suas damas”, a primazia dos compromissos assumidos e da honra pela palavra dada, tudo isto os fazia elevar para um patamar superior daqueles a que estava habituada.

Foram um amor bem guardado, quase um segredo de Estado, tantas foram as interferências e as tentativas de acabar com a nossa história, pois os adultos achavam que a sua era uma pouco recomendável companhia para mim.

Até hoje, nunca percebi porquê.

Com eles aprendi muitas coisas que nunca mais esqueci – história de vários países, geografia, geo-política, intrigas de alto nível… Aprendi quem foi o Duque que dá nome ao Palácio onde vivem os Reis de Inglaterra, que os Áustria eram espanhóis (incongruência apenas resolvida muitos anos depois quando percebi a questão sucessória dos Reis Católicos e como os Habsburgo – ditos Áustria – chegaram ao trono de Castela), que Richelieu foi uma dupla Eminência, enquanto Cardeal e Primeiro-Ministro de França e, que Mazarino, embora Cardeal e Primeiro-Ministro dessa mesma França, ficou para a história por ter inaugurado a noção de eminência parda

Reencontrei-os vinte anos depois, mais velhos, gordos e afastados das lides que os haviam unido, das lutas activas, com excepção de um deles. O nosso último encontro foi triste – vi-os partir, um a um, gastos pela tristeza ou simplesmente pela vida, um deles caído num campo de batalha, cumprindo o juramento de intransigentemente defender a Pátria que era sua…

Depois deles, houve outros ailavius – um quis descobrir a pedra filosofal sob a forma de criação de uma tulipa negra, outra, tuberculosa e amante de camélias, por amor se afastou do seu amor (uma seca! Depois de tanto duelo, de tanta intriga palaciana, de tanto cavalo estafado em corridas para Inglaterra em busca das agulhetas que iriam salvar a honra de uma rainha, não há pachorra para tísicas!), outro ainda, tornado Conde, fez da sua vida uma luta contra pecadores e contra o mal, empreendendo uma vingança cruel que só terminou quando arrasou o último dos seus algozes - mas, nesta coisa de ailavius, não há amor como primeiro.



Vestida a rigor – depois de correr as várias peças vintage que andam lá por casa, escolhi uma saia comprida da minha mãe, de lamé, ao melhor estilo dos anos setenta, para a segurar na cintura, tive que a prender com um alfinete-de-ama, o que provocou um gracioso plissado, um top preto bem decotado, luvas pretas até ao cotovelo, pérolas de pechisbeque nas orelhas, no pescoço e nos pulsos fizeram as vezes de jóias, uma maquiagem subtil - eis-me pronta para receber os ailavius da minha pré-adolescência: os Três Mosqueteiros, que afinal eram quatro, Athos, Porthos, Aramis e D’Artagnan (o único não-Mosqueteiro e que, curiosamente, existiu mesmo, tendo sido Marechal da França) e, claro, o seu criador, Alexandre Dumas Filho, autor de Os Três Mosqueteiros, Vinte Anos Depois, O Visconde Bragelonne, trilogia que reúne as aventuras dos meus heróis, para além de muitos outros livros que rechearam o meu imaginário adolescente.

Convidá-los para jantar foi um exercício difícil pois, do que deles me recordava, todos eram uns carnívoros empedernidos...

Resolvi cozinhar um bom jantar de Inverno, simples, honesto e muito lá do Norte, onde decorreu a jantarada, a condizer, aliás, com a estação e o frio reinantes – uma canja de millet, um arroz de couve portuguesa a acompanhar umas empadas de peixe e legumes com muita salada e, no fim, umas maçãs acabadas de assar no forno, recheadas com miso, raspa de laranja e miolo de amêndoa moído e regadas com cognac, oh la la!!!.

O vinho, esse, era tinto e do Douro e correu livremente. Assim como as histórias.

Noite dentro, contaram-se grandes segredos de Estado discutiu-se a questão da Flandres, a travessia do Canal da Mancha, a sorte do Duque de Buckingham, morto à traição por um enviado de Milady, essa Mata Hari do século XVII, emissária do tão odiado Richelieu… Suspirou-se pelos amores perdidos, enumeraram-se as inúmeras cicatrizes dos incontáveis duelos, relembrou-se o seu juramento de sangue, mil vezes entoado



E quando todos saíram, rindo alto, inebriados pelos vapores do tinto do Douro, apenas acalmados pelo Nespresso que os deixara maravilhados (“What else?!), eu sentei-me no chão da sala, enrolada nas saudades que tinha dos tempos em que estas personagens foram os meus ailavius.

CANJA DE MILLET

Ingredientes
1 medida de millet
5 medidas de água
cebola picada
1 dente de alho
1 folha de louro
sal
azeite
vinagre de ameixa a gosto

Preparação
Levar a cebola ao lume com uma pitada de sal e fio de azeite, o alho e o louro, quando estiver dourada acrescentar a água e quando esta ferver acrescentar o millet, que se deixa cozinhar entre 20 a 30 minutos.
Serve-se decorada com limão em triângulos e salsa picada (ou, preferencialmente, folhas de hortelã) e temperada com um golpe (generoso) de vinagre de ameixa.

ARROZ DE PENCA (também dita "couve portuguesa")


Ingredientes
1 medida de arroz integral
3 medidas de água
1 ou 2 pequenas pencas, muito tenras
sal
azeite
cebola picada
1 dente de alho
1 folha de louro
sal
azeite
Preparação
Levar a cebola ao lume com uma pitada de sal e fio de azeite, o dente de alho e a folha de louro, quando estiver dourada, acrescentar a couve muito bem lavada e cortada em pequenos bocados (mas sem ser juliana), quando a couve estiver tenra adiconar o arroz bem lavado e a água a ferver, fechar a panela de pressão e deixar cozer cerca de 40 minutos após a panela ganhar pressão.

EMPADAS FOLHADAS DE PEIXE E VEGETAIS


Ingredientes
massa folhada em quadrados (2 por pessoa)
pescada cozida em cubos
cebola picada
1 dente de alho
1 folha de louro
três cogumelos de Paris grandes picados
azeitonas sem caroço
salsa picada
vinagre de ameixa a gosto
Preparação
dispor os vários ingredientes em cima dos quadrados de massa folhada, terminando com a salsa picada e uns borrifos de vinagre de ameixa.
Fechar os quadrados de massa e levar a forno pré-aquecido cerca de 20 a 25 minutos.
Servir quentes (ou frios, tratando-se de um lanche ou refeição volante).

MAÇÃS ASSADAS


Ingredientes
maçãs golden a gosto (um ou duas por pessoa, dependendo do tamanho), bem lavadas e, preferencialmente, demolhadas em água com vinagre de sidra para retirar químicos), descaroçadas e com casca
uma pasta feita com miso de cevada, raspa de limão, miolo de amêndoa moído
um pouco de cognac
Preparação
dispor as maçãs numa assadeira de ir ao forno, rechear o espaço do caroço com a pasta de miso
regar as maçãs com cognac
Levar ao forno pré-aquecido e deixar assar cerca de 40 minutos
Servir com os sucos formados pelo cognac e pela própria maçã.

E com esta história e estas receitas participo na presente edição do desafio Convidei para jantar, de que o blogue Anasbageri é simultaneamente patrocinador e anfitrião.
Oxalá que a iniciativa se prolongue por muitas e muitas edições, pois deixou saudades cá por casa...

3 comentários:

  1. Paula, muito obrigada pela tua participacao. Se bem me lembro foste a última host do CpJ antes da Padaria ter fechado, nao foste? Sei que houve uma edicao em que eu nem participei e tenho esse peso na consciencia.... se foste tu (tenho qs a certeza) achas que podes ter em consideracao voltar a receber o CpJ em casa daqui a umas edicoes?
    Gostei tanto da tua participacao e dos teus convidados, e serviste um jnatar completo! Mas eles bem merecem!
    um grande abraco,
    Ana

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    1. Ana, e verdade que a ultima edição do CpJ, de Maio/Junho de 2013, foi recebida pelo paodecereais. E teremos todo o prazer em voltar a ser blogue anfitrião!
      Beijos,
      ptc

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  2. paula, podes enviar-me o link dessa edicao? Quero acrecentá-la à lista, e mais uma vez as minhas desculpas.

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