8.12.12

PORTO (COM)SENTIDO

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O rio, o mar, o granito e o ferro talharam esta cidade e suas gentes, cujo carácter se forjou na adversidade.
Do rio, diz-se que, tendo acordado tarde, partiu em desvantagem para a competição com os seus irmãos do sul, razão pela qual galgou montes e escarpas, trilhando o seu caminho pelos piores lugares possíveis, mas foi o primeiro a casar com o mar salgado que abraça a cidade pelo poente, e, desde então, essas duas atormentadas forças da natureza têm vivido uma união as mais das vezes pacífica mas na qual a tragédia é visita, infelizmente, algo frequente.

A dureza do granito, que não foi suficiente para impedir que as gentes da terra o talhassem como quem talha madeira, e o rendilhado do ferro forjado de portões, gateiras, janelas, varandas e frontões, emprestam à cidade um ar de velha senhora plena de aristocrata soberba, cuja austeridade apenas se ameniza com os muitos azulejos que decoram as fachadas.
                
  
É no Outono, quando as árvores se tingem de ocres e magentas, e no Inverno, quando japoneiras (1) e magnólias explodem nos jardins – públicos e privados - com um furor impressionista que não deixaria Monet indiferente, que a cidade adquire os contornos característicos e doces de uma luz que não fere, antes envolve.
Chego lá de combóio e entro na cidade depois de atravessar uma das três irmãs mais novas ou de segunda geração (2) que une a cidade à margem sul. Fujo da deprimente estação terminal apanhando o primeiro combóio que me leva a S. Bento, ponto de partida para o meu périplo.

O interior da estação está decorado com frescos de azulejos que retratam momentos da História de Portugal.
Mais do que uma estação de comboios, S. Bento é uma verdadeira obra de arte, erigida ao estilo francês da época, replicado posteriormente no Palácio do Conde de Vizela, nas Carmelitas.

S.Bento e o Palácio dos Condes de Vizela foram concebidos pelo arquitecto Marques da Silva, autor de vasta obra na cidade, mas de que destaco aquela que é actualmente a mais célebre casa portuense – a Casa de Serralves – expoente da então modernista Art Déco e mandada construir pelo 2º Conde de Vizela em meados dos anos vinte, em local então situado nos arrabaldes da cidade. De Marques da Silva é igualmente a autoria do monumento às Guerras Peninsulares, construído em 1909 para celebrar o primeiro centenário da vitória sobre as tropas napoleónicas.


A combinação do granito com os azulejos produziu, aliás, as belíssimas e emblemáticas Igrejas do Porto.


Sem sair da estação apanho o metro que me há-de levar para a outra margem. Atravesso de novo o rio, agora por uma das irmãs mais velhas, e saio na primeira paragem.


Subo à Serra do Pilar e admiro a cidade na sua mais bela e celebrada imagem – aquela que nos permite ver em simultâneo todas as irmãs: as elegantes filhas do Romântico industrial, uma das quais arquitectada por Gustave Eiffel, a não menos elegante Arrábida, concebida e executada por um dos filhos insignes da terra, de seu nome Edgar Cardoso e profissão engenheiro, e as mais recentes irmãs mais novas, coevas dos fundos estruturais e do desenvolvimento do betão (há aliás projectos de construir mais cinco, ou, pelo menos três, pontes... Ai como eu gosto de autarcas sem obra e que medo me dão tão tresloucados projectos!... Adiante, que o dia é curto, e se sobrevivemos aos franceses e às tropas de D. Miguel, também sobreviveremos a isto...); a Sé, o Seminário de Vilar, a Igreja dos Grilos, o alto da Torre dos Clérigos e dos arranha-céus do Notícias (3) e da Cooperativa dos Pedreiros (4), o Barredo, a Ribeira - Património Mundial desde 1996 -, os Jardins do Palácio já não de Cristal mas sim convertido em Pavilhão dos Desportos ou Pavilhão Rosa Mota (5), a marginal, que, qual serpentina, se desenrola até à Foz. À direita vislumbra-se a Quinta do Nova Sintra, onde funcionam as Águas, e apenas se adivinha a continuação da marginal que nos leva até Entre-Os Rios, terra tragicamente famosa pelo ruir de uma outra ponte. Numa cegueira selectiva, elimino da retina os monos e mamarrachos que, desde meados do século XX, vêm enfeiando a paisagem e que nunca, mas nunca, nem sequer quando construídos, foram bonitos.

Regresso à cidade pela sua mais magnífica entrada - uma cidade que muitos dizem ser triste, escura, provinciana e enfadonha.
Com a distância que a condição de imigrante me confere, reconheço a enorme evolução positiva que a cidade sofreu nas últimas décadas. Nela não encontro mais tristeza do que noutros locais do país – talvez uma depressão que, insidiosamente, se arrasta há mais anos, e mais visível apenas porque no Porto ando mais nas ruas e nos transportes públicos e posso sentir  - e ouvir - melhor o pulsar das forças vivas da cidade e do povo. E, é verdade, vê-se muita cara gasta e cansada, dorida e sofrida. Mas experimente-se viajar em Lisboa em certas carreiras de autocarros (no 712, p. ex., que vai para a feira da ladra…) e ver-se-ão dores e sofrimentos igualmente expressivos.

Quanto à luz, não vejo escuridão, antes uma luz peculiar e doce, que não é, claro está, a luz branca de Lisboa nem das cidades do Norte de África, mas, afinal estamos numa cidade do Norte, que partilha com outras cidades do Norte muita da sua personalidade – das que conheço, lembro-me de Amsterdão e das suas casas altuças e estreitas mas muito profundas, lembro-me da Grand Place de Bruxelas de que a Avenida dos Aliados parece irmã.

Provinciana, talvez, e digo isto não no sentido depreciativo de apoucar quem é da província mas pela constatação real de que muitos portuenses substituem a sua falta de mundo por um bairrismo insuportável que os faz julgar serem os melhores do mundo, tentação em que é fácil cair quando desse mesmo mundo nada se conhece. Mas também sei que foi esse bairrismo que, convertido em anti-centralismo, ajudou a vencer muitas lutas que haveriam de transfigurar o poder político e os destinos da Pátria – foi assim com a ajuda no cerco de Lisboa em 1383-85, com a resistência às Invasões Francesas, que os levou a astuciosamente dissimular a talha de ouro da Igreja de S. Francisco, assim ludibriando os gauleses que deixaram incólume o altar que pensavam ser de vulgar gesso, com a decisiva participação nas guerras liberais que legou à cidade a Rua do Cerco do Porto, cujo bairro (do Cerco) não é, infelizmente, muito bem afamado, e o coração do Rei D. Pedro IV, depositado, por vontade do próprio, na Igreja da Lapa. Mais recentemente, esse verdadeiro “Papa” que dá pelo nome próprio de Jorge Nuno e apelido Pinto da Costa, exacerbou, em proveito próprio e do FCP, a rivalidade entre portistas e o resto do mundo (é mesmo disso que se trata!) com os resultados que se sabem. Eu, que não gosto da coisa e acho que o futebol devia ser jogado a feijões, rendo-me à subtil inteligência de um homem que de bronco nada tem e que conseguiu em trinta anos destronar as hegemonias do Sul (claro que lhe agradecia três subidas finezas: mandar os super-dragões para junto dos dinossauros, seus primos, para que, em dias de bola, os energúmenos deixem o bairro em que cresci mais ou menos sossegado; alterar a toponímia da Alameda dos Campeões Europeus para Alameda das Antas e repristinar o Estádio das Antas em substituição do pirosérrimo Estádio do Dragão).

Quanto a ser enfadonha, só mesmo quem não tem ido à cidade nos últimos tempos e não frequenta o eixo de Cedofeita, Miguel Bombarda e das “Galerias” pode achar que uma cidade à qual se deslocam milhares de jovens estrangeiros é enfadonha. Há trinta anos havia no Porto três discotecas – Urraca, Twins e Swing – alguns bares e a noite estava feita. Agora vamos para as “Galerias” (petit nom que tem origem nas galerias comerciais denominadas “Galerias de Paris” e que viram a luz do dia no dealbar do século XX), o Bairro Alto portuense, que sobre o original alfacinha tem a vantagem de não ser medieval e ter uma traça copiada dos haussmanianos boulevards da Paris de oitocentos. E que dizer da animação cultural da Rua Miguel Bombarda e suas irmãs, sobretudo nos sábados de abertura simultânea das exposições? Essa é aliás uma das zonas mais emblemáticas do Porto romântico de oitocentos (não esqueçamos que parte da trama de Uma Família Inglesa se passa na contígua Rua de Cedofeita).

À semelhança dos outros países cristãos, o burgo nasceu e desenvolveu-se dentro de muralhas e em volta da catedral. A Sé baptizou, aliás, uma das freguesias seminais da cidade, que assim tomou o tome da madrinha. Neste templo - originariamente gótico mas ao qual foram acrescentados abundantes elementos dos estilos que se haviam de seguir – mandado construir por D. Hugo, o bispo francês a quem a mãe do nosso primeiro Rei terá atribuído o foral do burgo, reside hoje a imagem de Nossa Senhora da Vandoma, a padroeira da terra trazida de França no século XI e que ornamentava uma das Portas da Cidade - a Porta de Vandoma. Aqui se casaram os fundadores da Dinastia de Aviz – D.João I e D. Filipa de Lencastre –, pais de outro filho ilustre da terra, o Infante D. Henrique, que dá nome a nada menos do que quatro edifícios na cidade: a Casa do Infante, onde terá nascido, situada na Praça em que brilham a Bolsa e o Mercado Ferreira Borges, expoentes do poder económico do Porto de oitocentos, o Hotel Infante de Sagres, primeiro grande hotel de muito luxo da cidade, de meados do século XX, o Hotel D. Henrique, moderno e incaracterístico, e que só não parece tão feio como realmente é porque ao lado do seu vizinho silo-auto qualquer mamarracho é um Prémio Valmor… e, por último, a Ponte do Infante.

No Terreiro da Sé admiro a outra margem, belíssima, não mais parente pobre mas competidora por direito próprio com a margem Norte, e penso em como faria sentido termos a nossa BudaPeste ou a nossa Paris com a sua Rive Gauche (mesmo tendo que transigir com as pontes suplementares…) em vez de duas irmãs siamesas mas de candeias às avessas...

Como boa portuense, sou fiel às tradições e hostil às mudanças que me agridem. O Porto é, para mim, antes de mais, o Porto oitocentista, romântico, que se respira em cada linha de Júlio Dinis, que se adivinha no amor trágico de Camilo e Ana Plácido, presos na Cadeia da Relação por terem cometido o supremo crime de amar, que se sente nas casas e jardins das Ruas de Costa Cabral, do Bonfim, Cedofeita, Breyner, nos jardins da Quinta do Nova Sintra, nos cemitérios de Agramonte e do Prado do Repouso. É o Porto do Palácio de Cristal, não do Pavilhão dos Desportos…, do Grande Hotel do Porto, dos Cinemas Águia d’Ouro, Batalha e Sala Bebé, Trindade, Passos Manuel, Júlio Dinis, Perpétuo Socorro e do mais novel Foco, todos eles desaparecidos e substituídos por salas onde, por entre pipocas e coca-colas, dizem que passam filmes. É o Porto rural que conheci na minha infância e que ainda subsiste em algumas quintas e jardins de Lordelo, nas japoneiras e magnólias que explodem no Inverno. Porto é neblina, nuvens plúmbeas e prenhas de humidade, nevoeiros cerrados que nos molham os ossos e toldam a visão. É o passeio que nos leva do Infante até à Foz, a Foz Velha, a dos Pescadores de Raúl Brandão, palco de desgraça e miséria como soem ser as terras das gentes do mar, a Foz das vagas e vagalhões de um mar transfigurado pela fúria. É, por fim o Porto comercial da “baixa”, que persiste apesar das novas catedrais do consumo, do emblemático Bolhão, das Casas Ramos e Chinesa, nas quais encontro os produtos de que preciso para os meus menus macrobióticos, da Casa Natal, mercearia fina, a única onde sei comprar bacalhau… (6) e que visito nem que seja só para ouvir “Então o que vai ser hoje, Menina?”
Porto é aquele que pinta José Augusto Castro, meu amigo de infância.
 (Bairro da Sé - 1997)                                 (Muralha Fernandina - 1997)



 
                               (Barcos no Douro - 1997)

E, tal como o Príncipe de Salinas em “O Leopardo”, também eu acho que é preciso mudar alguma coisa para que tudo fique na mesma. Por isso espero que a cidade, fazendo jus ao seu ADN, saiba contornar os tempos difíceis que vive e possa evoluir sem perder a sua matriz identitária. 
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(1) Por serem originárias do Japão, as camélias – flor símbolo da cidade – são nela conhecidas por “japoneiras”.
(2) As três irmãs era o nome dado ao conjunto das Pontes D. Maria Pia (também conhecida como “A Velha Senhora”), D. Luís e da Arrábida; a estas vieram a acrescer, nos últimos vinte anos, a Ponte S. João, a Ponte do Freixo e a Ponte do Infante.
(3) O Notícias - abreviatura do Jornal de Notícias, actualmente primo-irmão do (Diário de) Notícias que sai em Lisboa e verdadeiro campeão de venda mais que não seja para consulta do obituário – é hoje o único jornal do Porto, tendo sobrevivido aos centenários O Comércio do Porto e O Primeiro de Janeiro. A sua sede é um edifício feio e incaracterístico do séc XX que tem a particularidade de poder ser visto quase de todos os pontos altos da cidade e de Gaia.
(4) Um restaurantes panorâmico, referência incontornável para a burguesia portuense de meados do século passado; não sei se os Pedreiros eram livre nem se usavam avental…
(5) O Palácio de Cristal, inaugurado em 1865 para acolher a Exposição Internacional do Porto, foi concebido de acordo com os cânones arquitectónicos da época, em granito ferro e vidro (daí o “cristal” do nome) e mandado construir pela Associação Industrial Portuense. Comprado pela Câmara do Porto, foi destruído à martelada em 1951 para dar lugar a um edifício de betão que albergaria o Campeonato do Mundo de Hóquei em Patins.

(6) Tenho amigos de Lisboa que vão religiosamente ao Porto no mês de Dezembro para comprar o bacalhau que lhes enriquece a consoada.
= Fotos de S. Bento, Palácio do Conde de Vizela, Serralves e Igreja foram tiradas da NET.. =
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Esta é uma viagem sentimental e, por isso, pessoalíssima.

Ficou muito - quase tudo - por dizer.
Do Anikibobó de Oliveira, à Casa de Chá de Sisa.
De Aurélia de Sousa a Pousão, meu pintor de eleição.
Dos pastéis que se vendem nas confeitarias, aos galões de cimbálino acompanhados de torradas "bijue" secas, sem esquecer os melhores croissants do mundo (sou do Porto, não há nada a fazer...) - os da Doce Mar, na Foz.
Dos bueiros para onde escorrem as águas, às bolas que pincham, dos picheleiros que consertam canalizações, às posturas onde se apanham táxis, sem esquecer os desandadores que servem para apertar parafusos...
E, por fim, mas não necessariamente menos importante, das mulheres do Porto, verdadeiro ex-libris da cidade, no seu aprumo e rigor formais, em sintonia com a austeridade da cidade, mas que nos desconcertam com a ousadia dos decotes, das mini-saias e, sobretudo, dos comentários maliciosos, a roçar a brejeirice...
Mas, para tal, um simples artigo num blog, a propósito de gastronomia, nunca seria suficiente...
Quanto ao título, parto da canção de Rui Veloso para criar duas derivações - a primeira, "com sentido" apela a um Porto coerente, a segunda "consentido" faz-nos lembrar que o Porto, sendo muito hospitaleiro, é no entanto fechado e para nele se entrar é preciso ter o seu consentimento.
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Com este artigo participo no Convidei para Jantar Uma Cidade, iniciativa da Ana, que este mês está a decorrer em casa da Marmita.



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Rebuscada a memória, lembro-me de, em criança, os meus pratos favoritos serem bife de fígado (não iscas), arroz de cabidela (de galinhas cujas goelas vi cortar sem sequer piscar os olhos) e uma boa rojoada com muito sangue frito à mistura...
Lá por casa (onde almoçava e jantava invariavelmente um ror de gente) usavam-se «comidas de sustância": os ranchos, os ragus, as sopas cheias de entulho, os arrozes de bacalhau, polvo, feijão, acompanhando filetes de pescada, bacalhau ou polvo; os meus favoritos, para além da cabidela, eram os pudins de arroz com atum, enformados numa linda forma ondulada onde também se costumava fazer um pudim de arroz de ervilhas; confesso que me fascinava contar o número de "ondas", tarefa impossível porque alguém começava a servir-se e lá desapareciam as ditas; os meus terrores eram os favoritos do pater familias: arroz de favas, arroz de bróculos, arroz de "penca"... Bom, mas sobrevivi e hoje até gosto de bróculos... 
As tripas, o bacalhau à espanhola, o bacalhau à Gomes de Sá e o bacalhau dourado (dito à Brás, em Lisboa), as pataniscas, os bolinhos de bacalhau também pontuavam.
Menus festivos tinham bacalhau do lombo pela certa ou então um lombo de carne assado no forno. Fora de casa, em quintas de conhecidos, tínhamos os rojões e as papas de sarrabulho, na altura da matança.
Peixe, para além do bacalhau, havia a pescada, em filetes ou à posta, carapaus, chicharros e fanecas. Na Primavera, o verdadeiro sável do rio, a que nunca achei piada pois tinha espinhas mais que muitas.
Nas dietas, muita farinha de pau "a seco" ou com frango, podendo também levar bacalhau.
Faziam-se também umas açordas de bacalhau que até não seriam más se alguém não se tivesse lembrado de as estragar com o raio da "penca".
Doces só em dias de festa. Pudins de ovos, leite creme, aletria e farófias.
Comida honesta e razoavelmente saudável (e só não digo saudável porque a gordura animal era demasiado usada na confecção dos alimentos). Mas a influência afrancesada do Patagruel e do Banquete  foram, de algum modo, descaracterizando os comeres tradicionais, de que a infame francesinha é exemplo maior.
O livro da Maria de Lurdes Modesto - Cozinha Tradicional Portuguesa - já apareceu tarde de mais e, para mim, muito cedo, porque nessa época eu nem queria ouvir falar de cozinha, e, se possível, viveria bem sem comer, porque comer engordava...


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O jantar de hoje foi, pois, um exercício de recriação. Cozinhado a quatro mãos, M. - emigrante fugaz no Porto - e eu tentámos recriar o que seria um jantar típico duma casa do  Porto. E elegemos o caldo verde com broa de Avintes, o bacalhau escondido, a aletria e as rabanadas de vinho.
Foi um jantar do Porto, com contas à moda Porto - M. confeccionou o bacalhau e a aletria tradicional. Eu cozinhei o caldo verde, as rabanadas e a aletria não tradicional.

A mesa e pormenor da argola de guardanapo feita pelas mãos de fada de M.



Faltam só as receitas. Passemos a elas!

CALDO VERDE (versão macrobiótica)

Ingredientes

Um couve flor generosa
Duas cebolas pequenas
Um courgette sem casca
Sal
Azeite
Couve portuguesa migada
Cubos de tofu fumado e estorricados nos forno

Preparação

Estufar as cebolas cortadas em cubos com um pouco de azeite e sal, acrescentar a couve flor em bocados e a courgette em cubos, tapar com água e deixar cozer. Migas as folhas verde da couve da couve e cozê-las durante bastante tempo no vapor.
Antes de servir, bater os ingredientes do caldo na liquidificadora e só então juntar a couve, acrescentando igualmente uns quadradinhos de tofu fumado estorricado. Servir com broa de Avintes (feita de centeio e milho).



BACALHAU ESCONDIDO


Ingredientes

Bacalhau cozido em lascas (sendo este é um prato de aproveitamentos, o bacalhau era normalmente da parte menos nobre)
Batatas cozidas cortadas em cubos
Cebolas em rodelas
Hortaliça cozida e cortada
Ovos cozidos cortados às fatias
Azeitonas pretas
Azeite
Sal
Molho béchamel

Preparação

Estrugir (refogar) a cebola com azeite, sal e alhos  picados, juntar as couves e deixar amolecer bem.
Num recipiente de ir ao forno colocar os ingredientes em camadas - a cebolada de hortaliça, batata, bacalhau, as rodelas de ovo e azeitonas. Cobrir com o molhio béchamel e levar ao forno a gratinar.

Pode servir-se com uma salada para dar um toque de frescura.



ALETRIA

Ingredientes

250 gr de aletria
250gr de açúcar
1/2 lt de leite
2 ovos
água q.b.
pitada de sal
casca de limão
pau de canela
canela para decorar

Preparação


Cozer a aletria em água abundante com uma pitada de sal, quando estiver cozida, escorrê-la bem e levar ao lume com o leite, a casca de limão e o pau de canela e o açúcar, até a massa ter absorvido completamente o leite. Retirar a casca de limão e o pau de canela. Bater os dois ovos e envolvê-los na massa quase fria. Decorar a gosto.

Na minha versão macrobiótica, usei massa e leite de arroz, açafrão para dar cor e geleia de arroz em vez de açúcar, nas seguintes quantidades: 100gr de massa, 300ml de leite, 100gr de geleia de arroz. Reconheço que há sobremesa macrobióticas infinitamente melhores e esta só a fiz para cumprir a tradição.



RABANADAS DE VINHO

Ingredientes


Um pão cacete para rabanadas cortado em fatias grossas
Vinho tinto maduro e vinho tinto verde (metade de cada)
Canela em pau, casca de limão
Um copo de vinho do Porto
Açúcar q.b.
Óleo para fritar


Preparação


Juntar os três vinhos e levar ao lume com um pouco de açúcar, o pau de canela e a casca de limão; deixar arrefecer, passando então as fatias de pão, rapidamente para não se desfazerem, escorrê.las e fritá-las em óleo abundante e bem quente. Absorver o excesso de gordura.
Levar a calda dos vinhos ao lume com mais açúcar e deixar ferver até reduzir para metade. Tirar o pau de canela e o limão.
Dividir as rabanadas por duas taças de servir. Polvilhar uma metade com açúcar e canela e regar a outra metade com a calda dos vinhos.


Na minha versão, substituí o açucar por meio frasco de geleia de arroz e não fritei as rabanadas: depois de as passar pela calda e escorrer, levei ao forno a tostar. Serviram-se com açúcar e canela (quem quis) e cobertas com  calda que, de tanto reduzir, parecia caramelo.
A receita destas rabanadas veio de Avintes, terra de minha mãe - e da broa -, e só as conheço em minha casa e nas de familiares próximos. Como não são muito doces (o vinho verde confere-lhes muita acidez) ou se amam ou se odeiam. Nós gostamos - pela tradição e, sobretudo, porque ao fim de uma noite de doçaria sabia bem desenjoar - e não as dispensamos no Natal. Dantes, era no Natal, no Ano Novo e nos Reis...

8 comentários:

  1. Olá, Adorei o teu post, super completo e bem explicado. Já conheço a tua cidade e adoro recomendo que todos a visitem porque é muito mais bonita do que muito lisboetas pensam.. isto do futebol deixa muitas pessoas na ignorancia. Muito obrigada por participares no convite para jantar com o teu completo banquete, adorei :) beijos

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  2. Magnifico panorama multifacetado da cidade do Porto. Balizado pelas referências históricas e salpicado de imagens e descrições sugestivas, foi criado o ambiente perfeito para juntar a crítica e a ironia, mas também o saudosismo e o romantismo.
    Fiquei cheio de vontade de revisitar uma quantidade de sítios.
    A parte gastronómica foi excelente, nomeadamente, o caldo verde e o bacalhau escondido, mas, valeu ainda mais, pelo convívio e amizade com as gentes do Porto e assimilados.
    Fiquei com muita vontade de repeti-lo novamente.

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    1. Já falta pouco para lá regressarmos para mais uma Consoada...

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  3. Graças à PTC fiz hoje um belissimo passeio pelo Porto, cidade de que tanto gosto e de tão gratas recordações. Vivi no Porto apenas 8 anos (dos 17 aos 25), mas foram os suficientes para que, quando de lá saí, e sempre que me perguntavam de onde era, dizer... sou do Porto. Deu-me cá uma saudade que só passa com um fim-de-semana na invicta. E tem que ser brevemente. E para terminar este passeio pela cidade, nada melhor do que um jantar, que tinha que ser à moda do Porto (inclusive nas contas). E na verdade, tudo esteve perfeito da comida à companhia, foi uma boa invocação do Porto ( até o avental duma das cozinheiras era a condizer!!).

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  4. Vi este post assim que foi publicado, mas esperei ter um tempo mais descansado para ler este texto maravilhos acerca da minha querida cidade. Parabéns, aqui ficou um relato de um Porto engrandecido e um verdadeiro guia para turista e não só. E o jantar não podia ter sido melhor escolhido. Parabéns.
    Beijinhos

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    1. Carla,
      Obrigadíssima, vindo da "concorrência", o teu comentário tem um valor muito especial!!!
      Agora a sério - também eu tive particular interesse em ler os artigos sobre o Porto (e, já agora, sobre o Norte, como o de Viana) e consegui "sentir" as terras em cada um desses escritos, como foi o caso do teu.
      Continuarei atenta às próximas iniciativas do CPJ para ver se nos voltamos a cruzar - não me esqueço que o teu blog era o anfitrião quando participei pela primeira vez (escritores contemporâneos, em Junho).
      Volta sempre a "esta casa" que serás bem recebida (e com boas ideias, espero!).
      Um forte abraço e votos de um Feliz Natal e um Bom Ano Novo.

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  5. Olá Paula. É um orgulho ter uma amiga como tu. O texto é maravilhoso! quem vive cá reconhece os sítios, sente-lhes ou cheiros e a luz fóssil e húmida que percorre as ruas e nos respira no pescoço como um hálito. Obrigado pela referência ás aguarelas e ao meu nome.
    Quanto á ementa. dispenso a aletria, de resto comia tudo!
    Um grande beijinho para ti e um abraço ao Zé Manel.
    Até um dia destes, o cenário está montado!

    José Augusto Castro

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  6. Boa noite Paula estou muito orgulhosa por ter uma prima com tantas qualidades,descreves o Porto tal qual o sentimos para aqueles que não o conhecem não podiam ter melhor guia.Quanto á ementa está óptima,não me escapava nada
    Um grande beijo para ti outro para o Zé Manel

    Maria Teresa

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